A presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziella Baggio, afirmou ontem à Comissão Parlamentar de Inquérito da Crise Aérea que o sindicato registrou casos de demissão de aeronautas (pilotos e comissários) após apresentarem nas suas empresas relatórios de perigos referentes a vôos de que participaram.
Segundo ela, que participou de audiência pública da CPI, nos últimos seis meses ocorreram pelo menos três demissões. "É claro que as empresas jamais vão reconhecer que demitiram por causa dos relatórios, mas todas as evidências apontam para isso", declarou. "Vamos investigar para saber se há nexo causal entre os relatórios e as demissões", adiantou o presidente da CPI, deputado Marcelo Castro (PMDB-PI).
Nem todos os relatórios de perigo são entregues às empresas diretamente. O mais comum, segundo Graziella, é os aeronautas fazerem os relatos por meio de um sistema de denúncias por telefone (0800-2829493) mantido pelo sindicato; em seguida, as informações são repassadas às empresas e autoridades responsáveis pelo tráfego aéreo.
Um relatório de perigo tem diversas naturezas. Pode detalhar riscos de colisão entre aeronaves, excesso de carga de trabalho da tripulação e até falta de alimentação para os pilotos.
Divulgação
A recente divulgação de alguns desses documentos nos meios de comunicação foi criticada de forma veemente pela sindicalista. "Trazer ao ambiente público relatório de perigo, imagem de radar das estações de trabalho dos controladores de tráfego aéreo e seus diálogos com os pilotos, além da sua exposição pública, é um profundo desserviço à sociedade".
Para Graziella, o espaço aéreo brasileiro é seguro, mas essas divulgações criam um clima de tensão. "Eu concordo com ela", declarou o relator da CPI, deputado Marco Maia (PT-RS). "A proliferação desses relatórios só contribui para deixar os controladores mais inseguros", acrescentou.
Auditoria
Em seu depoimento, a dirigente defendeu a realização de auditoria externa no sistema de controle aéreo. Para ela, não é possível "conviver com as dúvidas" motivadas pelas divergências entre os controladores e a Aeronáutica. "Diariamente, os controladores de vôo divulgam possíveis problemas técnicos ou tecnológicos, mas o Comando da Aeronáutica alega gerenciar um sistema perfeito, sem qualquer tipo de defeito", afirmou.
Essa auditoria foi uma das propostas do Grupo de Trabalho Interministerial criado após o acidente envolvendo o jato Legacy e o Boeing da Gol que causou as mortes de 154 pessoas em 29 de setembro do ano passado. O grupo foi desativado sem que suas sugestões fossem aplicadas. "O passo mais importante neste momento é a recomposição desse grupo de especialistas, a fim de que ele possa continuar auxiliando no fornecimento de idéias técnicas para a implantação de soluções definitivas para o setor", disse a presidente do sindicato.
Graziella Baggio afirmou ainda que já recebeu "algumas" denúncias sobre falhas de comunicação entre pilotos e controladores de vôo, especialmente nas transferências de controle entre os centros de Manaus e Brasília. As denúncias também foram recebidas pelo telefone do sindicato.
Luiz Alves
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